NU
Que calor! Que fogo! Que nostalgia! Que surto!
Tirei toda a roupa na agonia de me despir do mundo
Para que o suspense? Nunca viu alguém nu?
Duvido que os filmes, as novelas, sites e revistas não tenham mostrado?
Duvido que não se olharam no espelho sem roupas por uns instantes!
Eu estou completamente nu do senso comum,
Nu das horas, dos conceitos, naturalmente nu e sem tapa sexo.
Então, depois de despido, fiquei perplexo comigo mesmo
Olhei… Olhei… Tirei as medidas… E vi… Nossa como cresci!
Lembrei da minha infância de quando o sabor das coisas não tinha nome
De quando eu dava nome às coisas e o tempo eu não via passar
Quando eu não sabia que o especial era tão especial
Das amizades que eu jurava que estariam próximas sempre
De quando a mentira e o ciúme era tão fútil que em um minuto já se esquecia
Meu apelido era “menino de ouro”, em casa e na escola
Tudo o que fazia tinha criatividade, paciência, ternura e principalmente sonho
Antes mesmo de viajar, de conhecer um livro, minha imaginação já criava estradas
E claro, tem um lado meu de brincadeiras inocentemente pervertidas
Dos meus oito anos… Até para algumas insanidades minha imaginação levara
Mas… Lembro que sempre fui o “queridinho”, do tipo que todo mundo quer
Isso não mudou nada, desta vez não pertencendo a mamãe…
Quando me querem, deixo às vezes ver até aonde levam.
E agora estou passando as mãos pelo meu corpo… descendo ela vai esperta
Ligeira circula pelo pescoço, lembrei das mordidas e marcas de amor…
Correndo ela passa pelos peitos… Bom, melhor ficar em segredo…
E pelo umbigo… Ah sim, o umbigo, fundo… foi um corte preciso de parto
Minha avó dizia que pessoas de umbigo fundo seriam ricos, poderosos…
Não sei bem… Mas acho que meu umbigo me mostra a sorte sempre
Continua… Mãos ousadas! Isto não te pertence, melhor nem mexer.
Já vi gente chegar aqui e tremer. Sei o que tem aqui nessa ponte…
É o caminho mais fácil para o prazer. Pula esta etapa para não se enlouquecer!
E sinto ao tatear minhas pernas… Costas… Algumas feridas de quedas…
Houveram outras vezes que cai e não ficaram cicatrizes.
Naquele tempo uma pomada ajudava. Saudade das curandices de ervas…
As rezas, os xaropes, e as idas ao médico, a saúde sempre em dia
Lembro que ia e voltava de mãos dadas com minha mãe ou meu pai
Mas eu sabia atravessar a rua, e mesmo assim segurava suas mãos por segurança
E não tinha planos de fugir.
Mas claro, já imaginei… Sorte que não o fiz porque nunca fui bobo.
Só depois de grande, que fiquei uns seis meses fora de casa
Porque desafiei a mim mesmo e tive a ousadia de aprender tomando na cara
Ainda posso apanhar um pouco…
Desta vez, para aprender novas lições, porque disso não tenho medo
A dor faz a gente crescer!
Talvez essa natureza masoquista tem raízes na família
Porque meus pais nunca me bateram, nem alteravam o tom de voz comigo
Meus erros eram tão banais, que não cabia palmadas. Só um gesto repreensor
Que mesmo assim eu sentia ser como uma porrada.
Ô mãe… Ô pai! O mundo é que dá as palmadas!
E essas pernas, que em filas em pé ficaram… Pra entrar na escola, pra pegar a merenda…
Eu achava toda aquela organização uma chatice, mas eu me comportava
Cresci… Nossa! Sou homem de muitas velas, onde passo tudo se ilumina
Lembro das vezes que faltava luz em casa, era uma festa para mim
Saiamos de lanternas nas ruas brincando de caçar, de terror…
Não sabia eu o que era terror, pensava que existia apenas na TV.
Por falar nisso, confesso foi muito minha companheira, mas agora é o notebook
Ela fica lá falando sozinha, quando tem algo que me interessa dou atenção a ela
Me mostrou muitas curiosidades, se bem que eu não esperei me ensinarem, fui lá e fiz.
Tem sido assim em varias etapas do meu crescimento.
Foi assim que completei a escola conciliando com o teatro, com o inglês, pré-vestibular…
E com o grupo de jovens católicos, protestantes, espíritas, e visitas em umbanda.
Foi então que conheci o poder da palavra, rompendo mata à dentro
Explorando o desconhecido com entusiasmo e bravura
Assim enfrentei uma faculdade, e outras que enfrentarei.
Conheço o lado santo e insano das coisas porque fiz
Minhas mãos já se ergueram para agradecer dentro de casa, na praia, nos cultos
Nos carnavais… Já se ergueram em protestos pedindo paz!
Levo assim a vida de intempestivo, a final não sou hipertenso
Por isso abuso do coração, que venham mais emoções, mais sonhos, mais paixões
E se vierem às tragédias, que venham porque exemplos da realidade
Porque vivo um pouco na fantasia do mundo do “tudo acontece quando quero”
Até mesmo quando morrer, sei quando for a hora afinal não é agora
É quando tudo aqui eu deixar meu recado, meu nome marcado, minha referencia
Então devolvo tudo ao mundo e vou assim mesmo como estou: NU.
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