PÁSSAROS DE SETEMBRO
Fumaças da esquadrilha comemoram no céu de setembro uma data que tão
pouco me lembro. É hora de assistir ao espetáculo da Independência caros leitores.
Vamos todos para as ruas, e vejam as acrobacias perfeitas dos jatos da esquadra do
exercito. Antes vibra um brado alto retumbante de fogos de artifícios, e as tropas em seu
coro nacional bem ensaiado para a apresentação. Mas ainda estamos fascinados com o
espetáculo no céu.
Que lindo vê-los em sincronismo! Nesse céu brasiliano da comemoração
genuína nacional, bandeiras, cavalos e infantaria desfilando com suas fardas alvas.
Velozes os pássaros metálicos atravessam as nuvens num vôo simultâneo e
coreografado. O barulho de seus motores estremece nossa emoção. Pássaros militares
divertindo espécies de todas as idades. Olham todos para o alto… De repente uma
menina voa na contramão!
Aquela deslumbrada platéia de patriotas orgulhosos dessa folia celebre e
ninguém percebe a menina. Mas ela voa tão rápida e magnífica em seu vestido florido e
azul, já pintado do marrom do barro. Nada em seus olhos que eu possa descrever,
embora notasse que a fome a consumia vagarosa. Em sua mão, um copo descartável de
moedas, apenas 25 centavos de contribuição.
Ainda ontem ouvimos esse mesmo numero numa propaganda de um político: – É
25 meu povo! É 25 pra mudar! 25 você vai votar! O mesmo numero e valores
diferentes, quanta genialidade há nessa matemática da sobrevivência! Que vergonha,
não apenas dos 25 da campanha, nem dos únicos e míseros 25 da menina do vestido
azul, digo marrom de barro. Barros, coincidência, é o nome do candidato que até ontem
estava beijando a mão de todos os mendigos que via pela frente. Muita solidariedade e
compaixão por parte dele.
Mas toda a vergonha que falo é de abalar qualquer um feito terremoto.
Horizontes tão perfeitos de arranha-céus, construções aparentemente longe da
capacidade humana de criação, prédios imensos que preciso erguer o pescoço para
enxergá-los por inteiro, quase não cabem na foto turística do meu passeio. Mas a
menina continua imperceptível, quase me esbarro nela. Quase freio seus pés numa
pisada apressada. Mas ela nem sentiria, muitos naquele dia esmagavam seus pesinhos
murchos e calejados.
Imaginem essa criança, não importa a idade dela, poderia ser de qualquer lugar
desalojado desse planeta. Quando essa criança voa entre a multidão e ninguém a vê, o
que há de errado nos olhos dessas pessoas? O que nos impede de enxergá-la? Será a
rapidez de como suas asas batem no ar? Se ela parasse no céu todos se espantariam, é
claro. Mas como é possível? Ela nem come e flutua sem bater as asas? É um beija flor!
Não, é uma menina da rua, aquela que corre no terminal rodoviário. Sim, é ela, que
mora em todos os cantos da cidade, que é esmagada pela sociedade, que se esconde nas
esquinas, que se perde na multidão e se encontra entre os cachorros para dividir o osso.
Chega que o leitor está perto de chorar! Se ela gritasse mais alto que os holofotes nos
palanques em eleição? Se seu grito fosse mais forte que o som de uma explosão? A
cidade estremeceria, todas as construções magníficas despencariam. Nem tudo que é de
concreto dura, não concordam?
A menina continua a pairar na contradição, a cena não é de filme de terror, nem
comedia, nem exige efeitos especiais, é um reflexo de um breve momento da realidade.
Quando ela corre a natureza se encanta, lembro-me das brincadeiras infantis da minha
época do jardim. Na hora do lanche e roubavam minha lancheira, e quando fazíamos
filas para cantar o hino nacional… Símbolos, símbolos… A menina está desbotada na
cena, acreditem porque aconteceu, mas a noticia não foi publicada porque mais ninguém
a viu. Estavam todos maravilhados com o show dos aviões.
A sobrevivência dessa menina é um par de asas belas e mais alvas que suas
roupas de trapiche. Ela voa desse dilúvio! Corra e voa minha menina! Entre os arranhacéus
imensos e subumanos, mais alto que as fumaças desses pássaros de setembro, mais
longe que as nossas vistas míopes alcancem, acima das nuvens… Alem das estrelas…
Voa porque as nações esqueceram de lavar os olhos no colírio e não conseguem
enxerga-la. Quimera termos as asas dessa menina!
Ainda sem comentários.