EMPAREDADO
De frente pra parede
Azulejos vermelhos ajustados
E eu ajoelhado em penitência
O chão molhado de pecado
Do corpo escorre o suor pro piso azulado
Na ponta do nariz encontro-me com o limite
O muro na minha testa se faz de fronteira
A parede me testa e empresta os ombros de concreto
Paixões são ideologias mágicas
Beijos são pentagramas de línguas afiadas
Em todos os lábios que experimentei me libertei
Fui me desmontando feito boneco de palha
Fiapos de mim descartadas pela vassoura
Eu de frente pra porta fechada
Armários sem maçaneta, eu sem toalha.
Eu, o espelho e um rosto estranho desgastado.
A janela aberta e eu preso no quarto
Sinto a culpa imobilizar minha fuga.
A pia e a água no rosto desculpam-se por mim
Somente para amenizar os arrependimentos
Quanta historia jogada pelo ralo
Sigo as sobras na correnteza da descarga
Esqueço as horas no silencio de casa
Não lacrimejo, é o espelho que se embaçou.
A torneira pingando e o chuveiro ligado
A porta trancada pra dentro e o choro bloqueado
Saliva entalada na garganta
Quem são elas que me transgridem?
Quem são elas que me esqueço?
Quem é ela? Quem é ela? Quem é ela?
Ainda sem comentários.