JEFF WRITER

The Right at the "Jeff Writer"

DE ACORDO COM A ALMA (Jefferson Acácio)

Certa vez, um sábio passava por um jardim conhecido pela antagônica
organização das flores cultivadas ali. Um corredor com perfeito equilíbrio estético, com
as espécies florais dispostas sob medida naquele espaço onde o sábio caminhava
aderente. De um lado estavam delicadamente as flores murchas e quase descoloradas.
Enquanto ao lado esquerdo do sábio senhor, que andava vagaroso de admiração, as
flores estavam grosseiramente lindas como se estivessem sorrindo. Era realmente uma
cena de impressionar um leigo e até mesmo um sábio, ao contrário daquele senhor com
roupas limpas de tão alvas e sapatos velhos de tão gastados.
Qualquer um poderia logo imaginar que se tratava de um jardim cujas flores do
lado direito estivessem mortas por causa de inseticidas, e supostamente as flores do lado
esquerdo estavam bem cuidadas porque o jardineiro era mais cauteloso e tratou de
cuidá-las com mais carinho. Não. Pouco dessa suposição passou pela cabeça do sábio
senhor.
Não me recordo o nome dele, mas pouco importava esta informação, meu
interesse estava mais aguçado na tentativa de saber o que ele pensava com tanta
veracidade. Sei disso porque via seus olhos, mais brilhantes que suas roupas cor de
orvalho. E apontava, também, em sua expressão, um ar de fé e obviedade tanto quanto
os seus sapatos sujos e usados confirmavam.
E ele balbuciou algumas palavras, que ouvi com dificuldades, mas nada que eu não
possa ousar completar o sentido do todo. Ele dizia: – “Pouca idade ainda tenho, mas em
muitas estradas já andei. E mesmo por ser a primeira vez que vejo um jardim com flores
tão desiguais ainda não me surpreendo. Posso compará-las às sociedades em que visitei
na passagem do meu itinerário de viajante”.
Com o tal comentário, minha mente também fez um itinerário até as imagens do
meu inconsciente sobre as sociedades que conheci. Logo, um pensamento soprou e
consegui ouvi-lo zunindo. Mais uma vez, não decifrei tudo, mas completei o sentido.
Dizia assim: – “As sociedades separam os homens em confins arbitrariamente desiguais,
onde de um lado vemos os pobres e do outro lado os ricos. Isto parece ser obvio para
quem vive neste ambiente de extrema separação. Os pobres são desperdiçados na
exploração de seus direitos, de seu trabalho, e de suas necessidades vitais. Vemos como
exemplo, as favelas, ou os ‘quintos-dos-infernos’ em que são plantadas as flores que
mais precisam de cuidados. Sendo desnecessário descrever o lado oposto, ainda assim
faço questão de colocar as desigualdades obviais frente a frente. Do lado esquerdo, as
flores que representam os ricos esbanjam completos ares de majestades com suas
pétalas polidas e casacos de pele importados”. Minha imaginação foi longe como
podem ver, mas para minha comoção, o sábio balbuciou novas palavras que condiziam
o sentido que embuti neste instante.
Com um sorriso no canto dos lábios, ele avistou o amontoado de flores de ambos
os lados, e olhou para o céu dizendo “Conte para a alma quem tu és!”.
Também me assustei com o presente pronunciamento, que pela primeira vez não
consegui sequer completar o sentido, afinal não via sentido algum que me norteasse a
uma interpretação qualquer. Fiquei desesperado porque sem um terreno de chão
consistente não poderia sentir-me com os pés devidamente pisados, e do contrario, a
sensação que começaria a ter é de total desprendimento no espaço. Que desprezo senti
de mim mesmo por não entender o que o senhor disse com tamanha satisfação e certeza.
Passei a instaurar um espírito de contestação, de repente poderia surgir assim, uma
resposta que me parecesse mais consistente de menos objeção e mais clareza.
Glória por haver este espírito contestador, pois na minha primeira duvida menos
insistente, com voracidade veio uma duvida maior. Riam todos, a cena é de
tragicomédia, pois minha situação piorou. O senhor disse: – “Em que parte deste jardim
tu estás?!”. Mais uma confusão se manifesta na minha cabeça, e não posso resolver.
Vejo isto como um golpe de rasteira, e caio ligeiramente derrotado. Implorei, sem
contestações, por uma resposta imediata ou padeceria pelo suspense.
O pensativo senhor me avistou de longe, parecia ouvir meus gritos do
subconsciente, e como se soubesse do que eu ansiava, ele se aproximou com passos de
intrepidez. Sentou-se ao lado e disse: – “Vê filho?”. Respondi com a cabeça que não via
absolutamente nada, e neste instante ele olhou para as flores, levantou-se e me chamou
para seguir seus passos até o corredor que separava as flores. Ele apontou para o lado
esquerdo onde havia flores murchas e disse contente “Estas flores são reais, sofreram
porque apanharam das circunstancias reais da vida”, e ao olhar para o canteiro direito,
disse com consternação “Estas flores são artificiais, entregaram-se a doce ilusão da
imagem de perfeição que precisavam para não sofrer os verdadeiros obstáculos da
vida”.
O sábio ao olhar para a multidão que passava apressada no trânsito comparou: -
“Ali existem flores reais e artificiais. O belo disso é que elas vivem. Vê agora filho?”.
Eu disse contente também: – “Conte para a alma quem tu és” e o sábio
completou o sentido do todo: – “E a alma lhe dirá a que propósito tu viestes. Para ser
reais ou artificiais”.
Todos nós temos um propósito, mas é num determinado momento de sabedoria
que enxergamo-no, assim acontece o acordo que fazemos com a própria alma. O grande
acordo é se aceitamos ou recusamos o propósito. Então, acordai!

8 de Fevereiro de 2009 - Publicado por | 1

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